Histórias de Moradores do Bairro Penha

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores do bairro da Penha.


História do Morador: Ana Maria D'Angelo
Local: São Paulo
Ano: 26/10/2014

Vídeo: Eu desenvolvo a receita


Sipnose:

Ana Maria é uma famosa culinarista que começou a carreira por acaso, quando foi na televisão e se comprometeu a ensinar uma receita de bolo. Ela conta como começou a cozinhar entre o trabalho na loja do pai, as brincadeiras e os estudos.

História:

Eu sou Ana Maria D’Angelo, sou de São Paulo, e eu nasci em 25 de Janeiro de 1950.

Nasci em São Paulo, Capital. O nome do meu pai é Américo Batista da Graça e a minha mãe é Maira Aurora Amaral da Graça, ambos são de São Paulo. Eles eram vizinhos e moravam na mesma rua, diferença de quatro ou cinco casas e aí eles se conheceram. Quer dizer, eles foram criados juntos, a infância toda e casaram. Agora minha mãe é falecida, mas meu pai ainda é vivo, tem 83 anos.

Primeiro nós moramos com o meu avô em uma casa muito grande, um terreno muito grande! E aí pomar, então a gente subia nas árvores, tinha criação de porcos. Meu vô, quando era em Janeiro, ele comprava um porquinho assim pequetitico e ele criava o ano todo. A casa era dividida: você descia e então pro lado esquerdo tinha a cozinha, tinha um quarto que depois morou a mãe do meu avô. Do outro lado tinha a sala, os quartos. Depois tinha mais uma casa que era da minha mãe. Aí a gente descia umas escadas, tinha aquele quintal. No fundo tinha um rio, que agora lá provavelmente é uma avenida. Ali a gente chamava de Hortolândia e tem uma avenida que agora tem o metrô Penha, acho que eles aterraram esse rio e fizeram isso.

O meu pai primeiro trabalhava em uma loja chamada Almeida Silva, ele trabalhava nessa loja como motorista. Aí depois, que eu me lembro, saindo de lá, ele comprou um bar ali mesmo, na mesma rua que nós morávamos, Rua Santo Antero. A minha infância toda foi lá. Era rua de terra, então a gente podia brincar na rua. Eu me lembro, meu pai tinha uma lambreta que a gente andava pra lá e pra cá. Todo lugar que ia – ele não tinha carro – ia de lambreta. Então ia ele, a minha mãe, eu e o meu irmão, que eu tenho um irmão mais novo.

Depois meu pai teve o bar, e depois ele comprou o que na época se chamava venda, seria um empório. Então nós tínhamos o bar e o empório, eu acho que isso foi muito bom: eu amadureci muito, porque quando você trabalha no comércio, a criança fica mais esperta. Como era só eles dois, com dois negócios, eu acabei tomando conta de um. Acho que eu tinha uns seis, sete anos. Me ajudou porque você aprende fazer conta, a lidar com o público.

Eu morava ali na Santo Antero e estudava no centro da Penha, no Largo Sete de Setembro. Eu estudei no Grupo Escolar Santos Dumont, eu ia sozinha, e é longe! A gente ia, sabe, não tinha perigo. Meu pai é muito bravo (riso), não deixava sair. Então eu, assim, eu sempre gostei muito de estudar.

Quando eu saí do Santos Dumont, eu saí com medalha, porque eu gosto mesmo de estudar. Naquela época era difícil você entrar num colégio do Estado. Só se você tivesse uma boa nota, porque tinha o grupo escolar e depois você vai pro colégio do Estado, e eu ganhei. Mas o meu pai não deixou eu ir, porque fazia educação física, de shortinho. Papai falou: “Você não vai lá”, e não deixou. Aí eu fui pro Santo Afonso, que era de padre. E eu não saía, ele não deixava eu sair. Então quando eu saía, o meu irmão tinha que ir junto. E aí eu falei: “E agora? Então o meu jeito é estudar”. Aí eu estudei um monte de coisa. Então eu fiz Economia Doméstica, depois é que eu fui fazer cabeleireiro.

Eu sempre fui moleque, então brincadeira de rua, bicicleta, bola, adoro jogar bola. A rua não era asfaltada e depois ficou sendo, então tinha aqueles canos na rua, então a gente brincava dentro daqueles canos. Ah, todas essas brincadeiras, amarelinha, pular corda, subir em árvore nossa, adoro. Manga, chupar manga, chupar mexerica, caqui, na casa do meu avô tinha, a gente vivia em cima das árvores. Eu tive uma infância muito boa. Me diverti muito. Apanhei muito também, porque eu era muito levada.

Eu era assim, eu era um pouco briguenta e o meu irmão é mais novo, e aí ele apanhava dos meninos e aí eu tinha que bater nos meninos, porque se ele vai pra casa chorando, eu que apanhava, né? Como a gente tinha o bar e a venda, então eu tinha tudo em casa, de alimento. E sempre eu gostei de cozinha. A madrinha pra brincar com a gente e tudo, ela pegava e fazia a panelinha de lata de manteiga, de lata de óleo e fazia o fogãozinho lá com tijolinho, e eu gostava disso.

Então a minha mãe comprou aquele livro Dona benta e aí falava: “Vai Ana, vai fazer alguma coisa”, que era pra eu não ir na rua. Então eu pegava todas as coisas, porque não precisava comprar. Então eu via o que tinha na receita, ia lá e fazia. Ah, eles diziam que era bom. Às vezes saía bom, outras vezes não. Mas eu acho que foi aí que eu peguei, assim, o gosto pela culinária. Então eu fazia, por exemplo, tinha aniversário, eu me lembro que eu fazia muito bolo colorido, porque a minha mãe vendia os corantes.

Então eu fazia assim: um bolo verde, um amarelo. Não sabia fazer recheio, eu só punha leite condensado, um bolinho em cima do outro. Eu não saía de casa, ficava na cozinha. Depois eu ajudava, porque a minha mãe fazia pernil, pastel, essas coisas. Eu tinha sete, oito anos. Mas aí sempre eu gostei e depois eu já namorava, minha sogra gostava, e a minha sogra fazia um curso que tinha na Pirani. Tinha as Casas Pirani ali no Brás, a minha sogra ia no Brás. E tinha curso de culinária, curso de bordado e aí quando eu comecei a namorar, acho que ele contou que eu gostava, e ela falou: “Ah, fala pra ela que tem cursinho aqui”. Aí eu comecei a frequentar e foi aí que eu comecei a embalar e depois de uns dois ou três anos, eu já comecei a dar aula. Foi aí que eu fui embora!

O meu pai não deixava sair, eu nunca fui de baile. O muito que eu conseguia era ir no cinema. A tia mais nova da minha mãe, às vezes me levava no final do ano, quando tinha formatura. Eu ia ali no salão do Aeroporto de Congonhas. Aí eu ia no bailinho todo sábado ia no baile, tocava Creedence. Creedence já foi mais pro final, mas era mais Johnny Rivers mesmo, Elvis, Beatles. Aí saía do baile, a gente ia na Ideal comer pizza, que existe até hoje, eu vou até hoje, eu vou na Ideal. Meu noivado foi lá e é uma pizzaria que tem na esquina da Álvaro Ramos com a Padre Adelino. Depois com meus 19 anos que eu comecei a namorar e casei com 22 anos.

Eu não queria fazer quatro anos de Nutrição, porque eu já era casada e eu já tinha a Kátia (filha). Eu comecei montar aula. Porque assim, eu comecei dar aula assim, por um descuido: Eu fui participar de um programa que chamava Revista Feminina. Eu assistia todo dia, antes de Ofélia, passava na Bandeirantes, era com a Maria Thereza Gregori. Eu assistia toda tarde esse programa, e aí uma vez ela perguntou se alguém sabia, conhecia uma pessoa tal, que fazia um bolo chamado bolo de letras.

E eu fazia esse bolo, eu tinha aprendido no Rio! Porque tinha aula, assim, que eu sabia alguma coisa diferente, eu ia. Não importava onde, eu pegava o ônibus e ia embora. E eu sabia fazer o bolo. E eu nunca tinha ido em televisão, nada, aí eu falei assim: “Ah, vou ligar, falar que eu sei. Talvez eles queiram fazer o bolo, alguma coisa, né?”. Aí liguei, então a produção depois deu retorno e falou que então queria fazer uma entrevista, então que eu fosse lá, que eu fizesse o bolo e levasse o bolo.

Então eu levei, tava perto do dia das mães, eu escrevi a palavra mãe e levei o bolo. Eu fui entrevistada então pela Maria Thereza, que na época era a minha “ídola”. E ela queria saber, então eu expliquei e tudo, e no final ela falou assim: “Bom, essa é a Ana Maria D’Ângelo que fez esse bolo, se vocês precisarem, ela dá aula, ela faz o bolo”. Dar aula? Eu nunca tinha dado aula! Eu falei: “Meu Deus!”. Aí saiu do ar, falei: “Maria Thereza, eu não dou aula”, “Ah, você não dava, mas agora você vai dar, porque vão te procurar”.

A minha sogra tinha ficado com a minha filha, né, ela era pequena. E quando eu cheguei em casa a minha sogra estava com um cafezinho, assim, ela falou: “Olha, desde que você saiu daqui que eu tô pra tomar esse café, esse telefone não para e todo mundo marcando aula”. Eu falei “mas não dou aula”, “Ah, você vai ter que dar, porque tem todos esses nomes”. Olha, tinha nome! Foi aí que eu comecei. Então você vê, dessa aula tem 31 anos que eu comecei nessa área.

Como eu dava aula nessa época há mais de dez anos, eu pensei: “Eu dou muita aula que envolve química, porque eu faço desenvolvimento das receitas. Então se alguém me pede alguma coisa, eu não vou procurar a receita; eu pergunto pra pessoa o que ela quer, e eu desenvolvo a receita”. Eu sempre tive muita facilidade para fazer isso. Por isso eu fui trabalhar no Mesa Brasil e no Nutrir, porque as pessoas têm o alimento e eu desenvolvo a receita pra ela aproveitar aquele alimento. E só você fazendo o técnico é que você fica sabendo.

Aí eu aprendi muito na engenharia de alimentos e na química, apesar de eu não gostar de química. Achei que era suficiente, que eu não precisava da Nutrição, porque Nutrição tem a parte de hospital e eu não ia trabalhar em hospital, eu só queria dar aula. Então achei que era suficiente e aí eu fiz os dois anos e comecei dar aula, depois eu fui pra televisão. A minha dificuldade na televisão é assim, é que eu sou tímida, agora não sou tanto. Então para sair na rua era uma vergonha. No mercado eu fugia das pessoas, porque elas vinham conversar comigo, e eu saía. Depois, eu não sabia o que falar com as pessoas! Quando eu passo alguma receita, eu desenvolvo a receita, eu não copio a receita de ninguém. Eu sou a pioneira em aproveitamento integral de alimentos. Antes do Mesa Brasil, tinha a Mesa São Paulo, e eu fui convidada pra idealizar junto com eles. Desenvolvi todo o receituário, toda a doação que o SESC recebia, eles ligavam: “Ó, a gente tem doação, nós vamos receber tanto”. Então eu desenvolvia dez, 15, 20 receitas e aí fazia então as oficinas com as cozinheiras das entidades que o SESC ia fornecer.

Quer dizer, o meu repertorio também, ele cresceu demais, porque ela tinha a necessidade, eu tinha como resolver, desenvolvia e nisso você vai crescendo. E com a televisão, quer dizer, eu fiquei conhecida no Brasil todo! E naquela época, a culinarista era assim, um ponto que as empresas consideravam muito. Não só eu, todas! Porque você dá aula, elas confiam tanto em você, que a colher que você usa é a colher que elas querem, entendeu?

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